Para mudar um país não se pede que todos se tornem agentes da revolução, saindo às ruas com cartazes e gritos de guerra. Ao invés disso, é necessário um pensamento modificador em cada setor de uma sociedade. É necessário que haja pessoas com a ideia de mudança, com plena consciência social, na filosofia, na educação, na segurança, na política, na mídia, na arte, na saúde, no saneamento básico, nos serviços públicos, nos comércios e indústrias, no entretenimento; todas olhando para uma mesma direção. É preciso mudar todos os setores de dentro, da raiz, na origem de tudo. Não se trata de cortar a cabeça da hidra, achando que isso vai colocar as coisas nos eixos. Ela crescerá de novo e replicar-se-á. Precisamos de anticorpos e não de medicamentos.
Cada indivíduo tem o seu papel. Há aqueles que são porta-vozes, e esses sim devem sair às ruas e dizer o que está acontecendo, dizer que as pessoas estão mudando, estão acordando, que há algo de errado no país e no mundo. Esse cutucão é indispensável. E que eles façam barulho mesmo, o máximo que puderem, pois sabem fazer isso muito bem. Mas não se pode esquecer o que cada um deve fazer dentro daquilo que faz de melhor. De dentro, em silêncio, como um torrão de sal que se dissolve numa bacia d'água mudando para sempre sua constituição. Quando exigimos que alguém faça aquilo para o qual não tem o dom de fazer corretamente, achando que isso é ser cidadão, que isso é querer a melhora de um país, estamos sendo tolos, mostrando nosso despreparo em entender como funciona a mudança das pessoas e de seu entorno.
Que o educador torne-se consciente e passe a influenciar positivamente a educação; que o artista torne-se consciente e passe a expressar isso em suas obras de arte; que o jornalista torne-se consciente e passe a descrever o mundo de um ponto de vista mais expansivo; que aquele que tenha vocação política torne-se consciente e deixe mais honesto seu meio de atuação; que os pais tornem-se conscientes e preparem melhor seus filhos para o mundo. Não podemos pedir troca de papéis, não podemos exigir de uma pessoa algo que não pode oferecer. Há aqueles que sabem falar, há aqueles que sabem influenciar, há aqueles que sabem ensinar, há aqueles que sabem inspirar, há aqueles que sabem agir, há aqueles que sabem lutar, há aqueles que sabem acalmar e há aqueles que sabem entender. Cada um sabe fazer alguma coisa, e é nisso que devem agir. Quando todos olharem para uma mesma direção, fazendo aquilo que sabem fazer, aí sim a mudança acontecerá.
Ao invés de ficarmos bravos com um filósofo que fala sobre mudança e autoconhecimento, mas que não sai às ruas para protestar por qualquer coisa, devemos nós mesmos adquirir mais consciência e entender que ele já está fazendo aquilo que deve fazer, que sabe fazer. Somente quando entendermos que cada pessoa tem um papel fundamental, por mais discreto que seja, para a melhoria da sociedade, é que começaremos a caminhar numa mesma direção. Até lá, nos resta lidar com os dedos apontados de quem se acha mais importante do que outros por fazer barulho, quando o silêncio tem a mesma importância. Afinal, de que adianta mudar o governo se o médico continuará trabalhando com má vontade, se o educador não saberá ensinar, se o jornalista continuará tendencioso, se o cantor continuará fazendo músicas descartáveis ao invés de inspiradoras, se os policiais continuarão corrompíveis, se os religiosos continuarão desonestos, se os pais continuarão negligentes, se os escritores continuarão pedantes...
Enfim, reflitamos.